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Leandro Vilar

sábado, 2 de dezembro de 2017

A história militar tradicional e a "nova história militar"

A história militar tradicional e a "nova história militar"


Dr. Fernando Velôzo Gomes Pedrosa


"A história militar nos ensina sobre honra, 
sacrifício e a inevitabilidade do conflito".
Victor Davis Hanson



1.   UMA ANTIGA TRADIÇÃO

A História Militar é a mais antiga forma de História. Na verdade, a História começou como História Militar. A própria etimologia da palavra história remete a Heródoto (485-420 a.C.), autor das Histórias, relato minucioso das guerras entre gregos e persas entre os séculos IV e V a.C. Todos os demais textos históricos mais antigos que chegaram aos nossos dias são histórias de guerras, como a História da Guerra do Peloponeso, de Tucídides (460-400 a.C.); ou a Anábase, história da expedição do exército mercenário grego a serviço de Ciro, o Jovem, contra seu irmão Artaxerxes, imperador da Pérsia, escrita por um de seus protagonistas, Xenofonte (c430-355 aC); ou as Histórias, de Políbios (203-120 a.C.), relatando a história das Guerras Púnicas, entre Roma e Cartago (264-146 a.C.).

Antes desses historiadores, já havia relatos históricos, mas eles pouco se distinguiam das narrativas míticas, nas quais os humanos conviviam e entravam em disputa com os deuses e seres mitológicos. Esses relatos históricos, entretanto, eram invariavelmente descrições de episódios militares, como a Epopeia de Gilgamesh (c.Séc XII a.C.) ou a Ilíada, de Homero (Séc VIII a.C.). A onipresença dos fenômenos militares nos primórdios da História apenas reflete a importância que as guerras sempre tiveram para os destinos dos homens. Como observou o coronel professor Pedro Cordolino, antigo mestre de História Militar da Escola Militar no Realengo,

"Sendo a guerra o mais brutal fenômeno que nos apresenta a humanidade no seu lento evolver, está claro que ela seria a preocupação precípua dos historiadores nos primórdios da vida social. Daí o limitar-se a História, durante muito tempo, às narrativas dessas guerras e revoluções intercaladas com as aventuras dos potentados e as intrigas de suas cortes". (AZEVEDO, 1998: 21).

Tradicionalmente, a História Militar tem sido a história das guerras, campanhas, batalhas e feitos dos grandes generais, bem como o registro de todas as atividades das forças militares na guerra e na paz. Para John Keegan, um moderno historiador militar de postura tradicional:

"A História Militar é um conjunto de muitas coisas. É e para muitos escritores do passado e do presente é pouco mais do que isso o estudo dos generais e do generalato [...]. A História Militar é também o estudo do armamento e do sistema de armas, da cavalaria, artilharia, castelos e fortificações, do mosquete, do arco, do cavaleiro com armadura, do encouraçado, do bombardeiro estratégico. [...] A História Militar é, por outro lado, o estudo das instituições, regimentos, estados-maiores e escolas de estado-maior, dos exércitos e das marinhas em geral, das doutrinas estratégicas adotadas na batalha [...]. A História Militar, podemos inferir daqui, tem, em última análise, de tratar da batalha". (KEEGAN, 2000: 28-30).

Assumindo uma postura claramente profissional, o Manual de História Militar Geral usado pela Academia Militar das Agulhas Negras adota a definição proposta pelo historiador militar brasileiro Cláudio Moreira Bento, antigo professor daquela academia. Para ele,

"História Militar é a parte da História da Humanidade que nos permite reconstituir a História da Doutrina Militar. E Doutrina Militar são os princípios pelos quais os exércitos têm se preparado (organizado, equipado, instruído e desenvolvido as forças morais) para a eventualidade de conflitos e se empregados em guerras". (Apud. SAVIAN; LACERDA, 2009: 08).

2.   AMPLIAÇÃO CONCEITUAL

Depois da Segunda Guerra Mundial, o conceito de História Militar se ampliou significativamente, passando de uma história das guerras, campanhas, batalhas e feitos dos grandes generais, para a história das instituições militares, na paz e na guerra e sua relação com a sociedade. Essa evolução não é um fenômeno isolado, mas coincide, e na verdade reflete, a ampliação da dimensão dos fenômenos militares e a democratização das sociedades. O fenômeno da guerra evoluiu de uma dimensão puramente militar para uma dimensão total (Ver RAPOSO FILHO, 1990), no qual as operações militares já não se restringem a um espaço limitado, conhecido como campo de batalha, mas afetam a toda a sociedade, incluindo a totalidade dos países ao alcance dos modernos meios de destruição e fazendo a população civil vítima de ataques indiscriminados. Nessa nova e ampliada dimensão da guerra, o cidadão comum é chamado a pegar em armas, sendo de seu interesse conhecer as entranhas e os mecanismos das instituições militares. No final do século XX, a interpenetração entre os combates e a vida das pessoas havia chegado a tal ponto que o tenente-general britânico Rupert Smith, antigo comandante das forças da OTAN no Kosovo, entendeu que surgia uma nova categoria de conflito que seria prevalente no futuro: a “guerra entre o povo” (SMITH, 2005: 313).

Nas modernas sociedades democráticas, portanto, os cidadãos buscam compreender suas instituições militares, para as quais contribuem por meio de impostos e nas quais são chamados a servir em situação de guerra. Entendem também que o conhecimento dessas instituições armadas é relevante para evitar que se transformem em ameaça à própria democracia.

A ampliação do campo da História Militar é também fruto da evolução da História como ciência no decorrer do século XX, passando de uma História tradicional, de caráter descritivo, para uma “Nova História”, de natureza crítica. A História tradicional era uma crônica de acontecimentos, com foco nos eventos históricos e em busca do ideal positivista da objetividade e do registro da “verdade histórica”. Era fundamentalmente uma história política e militar. A Escola Marxista levou o foco para a economia e para a luta de classes, mas continuou sendo uma história política e com a pretensão de ser uma ciência exata.

A ideia de uma Nova História surgiu no princípio do século XX na Europa e nos Estados Unidos, significando uma abertura da História para o campo sociocultural. (JAGUARIBE, 2001: 37) A tendência por uma Nova História firmou-se, porém, na França, com a criação da revista Annales d’Histoire Économique et Sociale por Marc Bloch (1886-1944) e Lucien Febvre (1878-1956) em 1929. A proposta da Escola dos Annales e de seus seguidores é de uma forte rejeição à História Política e à história dos acontecimentos. Para alguns expoentes da Nova História francesa, os acontecimentos não são mais que “a espuma da história” (DUBY, 1993: 14). Os adeptos da Nova História buscam a multidisciplinaridade dos estudos históricos, com a utilização de novas fontes de pesquisa, além dos tradicionais documentos escritos, e de novos pontos de vista, como a história vivida e protagonizada pelos estratos inferiores da sociedade, no que ficou conhecido como a “história vista de baixo”. Seu ideal é ser a “„Ciência dos homens‟ [...] [e] É preciso acrescentar: „dos homens no tempo‟” (BLOCH, 2002: 55), buscando um sentido de síntese histórica, de história das mentalidades e das perspectivas do longo prazo. A “Nova História” pretende, enfim, ser uma “História Total”, rejeitando a divisão em histórias parciais: política, diplomática, econômica, militar, religiosa etc. (GURIÊVITCH, 2003: 32).

3.   A NATUREZA E A UTILIDADE DA HISTÓRIA MILITAR

Como já foi demonstrado acima, a História Militar está na origem da própria História. Refere-se fundamentalmente às atividades militares, ou seja, às guerras, campanhas e batalhas. Caso contrário não seria uma história verdadeiramente militar. Como observou John Keegan, “não é pelo que os exércitos são, mas pelo que os exércitos fazem que as vidas das nações e dos indivíduos se modificam” (KEEGAN, 2000: 31)

Do ponto de vista militar, o estudo da História Militar tem caráter fundamentalmente utilitário. É uma ferramenta para aprender com o passado, facilitando a compreensão de conceitos militares teóricos por meio de exemplos históricos de sua aplicação. Auxilia a aprendizagem do emprego de forças militares nos níveis estratégico, operacional e tático, bem como a compreensão da evolução da doutrina militar, servindo como uma ponte entre a teoria militar e a aplicação dessa teoria. Segundo Clausewitz: “Os exemplos históricos esclarecem tudo; possuem, além disso, um poder demonstrativo de primeira categoria [...]. Isto verifica-se na arte da guerra mais do que em qualquer outro campo.” (CLAUSEWITZ, 1979: 191).

O ensino da História Militar tem, pois, uma tradicional função didática na educação de chefes militares, oferecendo valiosas lições práticas sobre a arte da guerra, principalmente nos níveis da estratégia e do emprego tático de grandes efetivos militares, quando não existem soluções padronizadas em manuais. À medida que as atividades militares ascendem do nível técnico, como o de como carregar, apontar e disparar um fuzil, para o nível da tática de emprego de forças militares e daí para a estratégia, é cada vez mais difícil encontrar soluções nos manuais militares. Manuais podem prescrever a técnica para calibrar e sintonizar um rádio de campanha, ou para desdobrar no terreno e manobrar um grupo de combate (ou esquadra) de nove homens. Ações técnicas ou de tática elementar têm poucas variáveis e podem ser facilmente descritas, prescritas e ensaiadas. É muito mais difícil estabelecer regras para o emprego de uma brigada de quatro mil homens ou uma divisão com 15 mil homens e milhares de veículos, manobrando para abordar o inimigo em situação vantajosa, levando em conta a incerteza do combate, as configurações do terreno, as condições atmosféricas, a disponibilidade de suprimentos e de transporte, a rede viária e um sem fim de outras variáveis. Da mesma forma, o adestramento ou ensaio de efetivos dessa magnitude ou maiores implica em elevados custos econômicos e na disponibilidade de campos de instrução com enormes espaços de terreno desimpedido de atividades civis. Embora a História Militar não seja capaz de estabelecer regras prescritivas para os comandantes de grandes formações militares e para os decisores estratégicos, o estudo de casos históricos pode oferecer modelos de soluções para casos variados, enriquecendo o seu leque opções. Como observou Napoleão Bonaparte, “o conhecimento das partes superiores da guerra só se adquire pela experiência e pelo estudo da história das guerras e das batalhas dos grandes capitães”. (Apud. AZEVEDO, 1998: 23).

Uma segunda função didática da História Militar é servir de fonte de inspiração para os aprendizes da vida militar, sejam recrutas em treinamento para o exercício das funções mais elementares do soldado, sejam jovens cadetes, preparando-se para assumir funções de mando militar como oficiais. O estudo das vidas dos soldados do passado proporciona exemplos de procedimento em situações extremas, quando a sobrevivência pessoal e do grupo estão em jogo. A dureza extrema e a ameaça iminente à própria vida são características inerentes à atividade de combate. Quando um soldado tem que seguir avançando e manter a cabeça erguida para ver e atirar, no cumprimento de seu dever legal e moral, o suporte da crença em valores e virtudes militares, mais do que uma ajuda, é fundamental. É da lembrança de atos de coragem, desprendimento e sacrifício perpetrados por soldados do passado e pelos seus antecessores, que o homem, contrariando seus impulsos naturais de fugir ou esconder-se, torna-se capaz de seguir em frente. E é da História que vem essa inspiração. Quase 200 anos antes de Cristo, Políbios já afirmava que “o mais seguro e na realidade o único método de aprender a suportar altivamente as vicissitudes da sorte é recordar as calamidades alheias”. (POLÍBIOS, 1996: 41).

O desenvolvimento de virtudes cívicas e militares, e a instilação dos valores correspondentes não são fruto de uma visão ingênua e idealista, afastada da brutal realidade da guerra. Não há atividade humana na qual as questões morais sejam tão evidentes e cruciais. Decisões que resultam na matança de pessoas, na destruição de bens particulares e de patrimônios públicos não podem ser tomadas sem forte respaldo da ética. Embora a História das guerras esteja recheada de exemplo do uso da mentira e da falsificação, essa própria hipocrisia é uma prova do quanto as questões morais são relevantes quando os governos desejam comprovar que a guerra tem uma causa justa e que está sendo travada de forma justa (Ver WALZER, 2003: 31). Ademais, mesmo em tempos de paz, soldados e principalmente chefes militares destituídos de valores morais são um risco para a sociedade que os mantém e a eles confia sua segurança.

O estudo da História Militar também permite a aprendizagem de lições sobre liderança militar, sob duas perspectivas distintas e complementares. A primeira é a compreensão do comportamento do homem e da tropa em combate; de suas reações diante do risco de ser morto ou ferido e, no caso dos homens em funções de comando, de como eles reagirão diante do desgaste físico e emocional decorrente de suas responsabilidades. A segunda é a obtenção de modelos de liderança e de tomada de decisão por meio do estudo do desempenho de antigos chefes militares em combate. Esses modelos podem ser tomados como exemplares, mas também como objeto de avaliações críticas, em busca de soluções mais adequadas. Ambas as perspectivas são de grande valia na educação de oficiais, apurando suas percepções nos níveis interpessoal e intrapessoal. Do ponto de vista interpessoal, lhe permitirá uma melhor avaliação das expectativas, motivações e temores de seus subordinados. Do ponto de vista intrapessoal lhe permitirá levar em conta seu próprio estado emocional ao tomar decisões e fazer julgamentos a respeito de pessoas e situações.

Tradicionalmente, a História Militar também tem desempenhado as funções de ferramenta de simulação de combate, por meio da vivência e análise de experiências militares passadas. Essa função tem sido substituída em grande parte pelos “jogos de guerra”, introduzidos nas escolas de estado-maior no século XIX, e fortemente expandida com os instrumentos da tecnologia da informação após a 2ª Guerra Mundial. Até o surgimento desses jogos de guerra, a leitura de obras de História Militar era o único meio disponível aos comandantes e oficiais de estado-maior para vivenciar, durante os períodos de paz, a experiência de estar em combate.

Finalmente, a História Militar é o repositório da memória das instituições militares, sob a forma de práticas, valores e tradições. As instituições militares são essencialmente realistas e conservadoras, como observou Samuel Huntington, em O Soldado e o Estado (HUNTINGTON, 1996: 76-97). Esse conservadorismo é fruto de uma ética que

"enfatiza a imutabilidade, a irracionalidade, a fraqueza e a maldade da natureza humana... [que] proclama a supremacia da sociedade sobre o indivíduo e a importância da ordem, da hierarquia e da divisão de funções... [que] salienta a continuidade e o valor da história". (HUNTINGTON, 1996: 96).

A atitude profissional conservadora dos militares não é apenas compreensível, mas desejável em pessoas que são as executoras do monopólio estatal da violência, detentoras de armas e engenhos destruição, e treinadas na sua utilização. O apego às tradições e o culto de valores militares, como a honra pessoal, o cumprimento do dever a todo custo, a lealdade aos comandantes, pares e subordinados, o respeito às leis e à dignidade da pessoa humana, e o amor à pátria são garantias contra a degeneração das instituições militares em bandos armados.

4. A ESCOLA TRADICIONAL

A História Militar tradicional estuda a evolução da arte da guerra e da doutrina militar.2 Seu foco está nas campanhas, batalhas e nos feitos dos grandes chefes militares, em busca princípios universais para a vitória e para a liderança militar. Tem fundamental função didática no estudo da estratégia, da tática e da liderança militar, com base em estudos de caso nas academias militares – dedicadas à formação de jovens oficiais –, e nas escolas de estado-maior – cuja função é habilitar oficiais amadurecidos para as funções de assessoramento de alto nível e o comando de grandes unidades militares.

A História Militar tradicional tem sido o campo de “militares historiadores”. Em geral, tem pouca acuidade metodológica, pois não resulta do trabalho de historiadores profissionais, mas de aficionados. Tende, portanto, à grandiloqüência e à adjetivação excessiva. É basicamente uma história descritiva e busca o ideal de apresentar “os fatos como aconteceram”. Em função dessas características, ficou conhecida depreciativamente nos Estados Unidos como “História-Batalha” ou História de “tambores e clarins”. Em função de sua origem não especializada e “corporativa”, tem clara tendência ao mito, ao enaltecimento de figuras históricas e a certa condescendência no julgamento dos fatos e protagonistas. Essa tendência é natural e inerente ao “militar historiador”, pois, como observou Jay Luvaas:

"Ao soldado que apanha uma pena para escrever, é muito difícil esquecer-se, por uma carrada de razões, perfeitamente compreensíveis, da possibilidade de que um dia sua mão venha também a empunhar uma espada. Há reputações a proteger, velhas amizades que não podem ser esquecidas, governos que devem ser atendidos". (LUVAAS, 1981: 54).

Por sua vez, a tendência ao mito é uma consequência da própria ancestralidade da História Militar, que deita raízes nos relatos históricos mitológicos da antiguidade mais remota. É também resultado da forte carga emocional que envolve os eventos militares. Guerras resultam em ódios profundos e ressentimentos, lidam com a questão da própria sobrevivência da nação ou do grupo social, envolvem as reputações de chefes e instituições militares e, com frequência, implicam na necessidade e justificar ações cruéis ou derrotas.

Em geral, termo "mito" é empregado com sentido pejorativo para se referir às crenças comuns, vistas apenas como histórias de um universo puramente maravilhoso. Mas os mitos são essencialmente narrativas de caráter simbólico, e constituem uma das substâncias das representações coletivas, no sentido dado por Emile Durkheim: “maneiras de agir, pensar e de sentir, exteriores ao indivíduo, e que são dotadas de um poder de coerção” (DUKHEIM, 2007: 3). Para Serge Moscovici, as representações coletivas incluem “ciências, religiões, mitos (grifo meu), espaço, tempo” (MOSCOVICI, 2001: 47). No caso das instituições militares, os mitos têm a fundamental função de estabelecer modelos de comportamento e difundir os valores e tradições que são o sustentáculo emocional para homens em combate, pois, quando o homem está frente a frente com a morte, a pura razão não é suficiente para sustentar seu estado moral. A esse respeito, Keegan afirmou que Moltke “considerava „um dever de piedade e patriotismo‟ não destruir certos depoimentos tradicionais” que pudessem ser usados com um fim inspirador. (KEEGAN, 2000: 23).

Do ponto de vista profissional militar, em função de sua natureza e do seu utilitarismo, a História Militar tem como objetos de estudo: as campanhas e batalhas; a estratégia e a tática; a doutrina militar; a organização e o preparo das forças militares; a liderança militar; a logística; o armamento e a tecnologia aplicada aos equipamentos militares; e a evolução das instituições militares e de suas práticas, valores e tradições. Entretanto, durante a segunda metade do século XX o mundo acadêmico passou, cada vez mais, a dedicar atenção ao estudo das forças armadas em sua relação com as sociedades às quais servem, numa tendência que passou a ser conhecida como Nova História Militar.

4.   UMA NOVA ESCOLA

Após a 2ª Guerra Mundial, surgiu nos EUA uma corrente historiográfica conhecida como Nova História Militar. A gênese dessa nova tendência historiográfica foi marcada pelo clima de confrontação ideológica da guerra fria e pelo mal-estar vivido no país em função da guerra do Vietnã. Os acadêmicos vinculados à nova escola tinham clara inspiração marxista na ideologia e na metodologia de trabalho, além de demonstrarem desprezo pelas instituições militares.

A Nova História Militar sofria clara influência da “Nova História Cultural”, então em voga nas universidades norte-americanas, concentrando suas atenções em temas como poder, ideologia, classe, identidade cultural, raça, gênero etc. Seu principal objeto de estudo eram as relações entre as instituições militares e a sociedade, pois “como instituição, o Exército reflete a cultura nacional e exerce um impacto sobre ela”. “Como instituição, [...] o Exército deve ser considerado, também, como uma força social de tempo de paz” (MATALOFF, 1982: 423-424)
A Nova História Militar dava preferência a temas “de esquerda”, como a composição social das forças e dos quadros de oficiais, o recrutamento e questões culturais, de gênero e de raça nas instituições militares.

Essa tendência pouco “militar” também tinha origem na falta de intimidade da maioria dos historiadores acadêmicos com as experiências militares. Efetivamente, estudar as instituições militares como forças de combate é um grande desafio para pessoas que não conhecem em profundidade suas características organizacionais e culturais bastante peculiares, seu jargão profissional, seus conhecimentos técnicos especializados, nem vivenciaram o tipo de experiências profissionais extremas que tendem à formação de confrarias. Como profundo conhecedor da alma humana, Shakespeare foi capaz de expressar essa união forjada nas armas por meio das palavras do rei Henrique V antes da batalha de Agincourt:

Nós poucos, nós poucos e felizes, nós, bando de irmãos;
Pois quem hoje derramar seu sangue comigo,
Será meu irmão; seja ele o mais vil que for,
Este dia enobrecerá sua condição.
(SHAKESPEARE, 2007: Ato 4, Cena 3)

A esse respeito, em 1975, Jay Luvaas, então professor de História do Allegheny College, confessou com franqueza:

"Muitos historiadores civis e eu me incluo entre eles se ressentem da falta de uma experiência pessoal ou de conhecimentos técnicos para escrever certos detalhes da História militar. Eu posso acompanhar os movimentos das Brigadas e Divisões durante a batalha, porém, como nunca, eu mesmo, tive a oportunidade de empunhar nervosamente uma arma, só posso contar com a ajuda de outros para aquilatar das dimensões psicológicas da batalha". (LUVAAS, 1981: 54).

Embora afetada por certos preconceitos ideológicos, conforme reconheceu Peter Paret, um de seus expoentes (PARET, 1991: 16), a Nova História Militar trouxe grandes aportes metodológicos e de interpretação à história das instituições militares, ampliando o debate sobre temas militares em campos antes pouco explorados, mas fundamentais para a compreensão do desempenho dos exércitos em campanha – como as questões culturais, o recrutamento da tropa e do corpo de oficiais, as questões organizacionais, as tensões internas que refletem as existentes na sociedade na qual foi recrutado etc.

No Brasil, a Nova História Militar apareceu a partir do início da década de 1990, coincidindo com o arrefecimento do confronto ideológico após o fim da guerra fria e dos governos militares. Ao contrário do que ocorreu nos Estados Unidos, a nova tendência iniciou uma desmobilização ideológica das tensões criadas nas décadas precedentes, quando as principais correntes historiográficas brasileiras de esquerda dedicaram-se a uma “releitura” da História do Brasil com claras características de propaganda contra as Forças Armadas, vistas como reacionárias e responsáveis pela frustração de seus ideais socialistas. O início da revisão do revisionismo levada a cabo pelos “novos historiadores militares” foi dado por Ricardo Salles, com Guerra do Paraguai: Escravidão e Cidadania na Formação do Exército, publicado em 1990, no qual contesta a explicação das causas da guerra do Paraguai como uma intervenção imperialista brasileira, incitada pela Inglaterra, contra um suposto modelo de economia autárquico e semi-socialista então vigente no Paraguai. (SALLES, 1990).

Como nas suas versões internacionais, a Nova História Militar brasileira também demonstra clara preferência por temas “politicamente corretos” e não relacionados às operações militares. Sua prioridade tem sido questões como as relações entre as instituições militares e a sociedade, o controle civil das Forças Armadas, o recrutamento de escravos durante a guerra do Paraguai, as questões de gênero e raciais, o homossexualismo nas casernas etc. Embora com essa visão parcial, os historiadores dessa corrente no Brasil têm produzido trabalhos valiosos para a interpretação da evolução das instituições militares brasileiras. Seus principais expoentes são: o já citado Ricardo Sales; Francisco Doratioto, com seu volumoso Maldita Guerra: Nova História da Guerra do Paraguai, que tem sido considerado um trabalho de referência sobre a guerra do Paraguai (DORATIOTO, 2002); Vitor Izecksohn, com O Cerne da Discórdia, sobre as demandas profissionalizantes no Exército Brasileiro surgidas com a guerra do Paraguai (IZECKSOHN, 2002); Celso Castro, que, juntamente com Izecksohn e Hendrik Kraay, organizou o livro Nova História Militar Brasileira (CASTRO; IZECKSOHN; KRAAY, 2004); e Adriana Barreto, com Duque de Caxias: O Homem Por Trás do Monumento, que, embora não tenha a intenção de ser um livro de História Militar, faz uma ampla análise da formação do corpo de oficiais do Exército Português na colônia e do Exército Brasileiro na primeira metade do século XIX, bem como traça o perfil social e familiar que fizeram de Luiz Alves de Lima e Silva um dos principais sustentáculos do Império e da unidade nacional (BARRETO, 2008). Também devem ser citados os brasilianistas Frank McCann, com seu Soldados da Pátria, uma história do Exército Brasileiro da queda da monarquia até as primeiras décadas do século XX (McCANN, 2007) e Peter M. Beattie, com Tributo de Sangue, uma história da adoção do serviço militar obrigatório no Brasil e de todas as transformações institucionais que vieram em consequência ou foram condição para torná-la possível.

A pouca atenção do meio acadêmico brasileiro aos temas ligados à atividade bélica é evidente para os próprios historiadores mais ligados à História Militar no país. Coincidindo com a opinião expressa por Keegan quanto à prevalência da batalha como objeto da história militar, os organizadores do livro Nova História Militar Brasileira reconheceram o descuido da Nova História em relação à atividade essencialmente militar do combate. Eles admitiram que “talvez os historiadores sociais das organizações militares, às vezes fascinados com a vida cotidiana, tenham negligenciado a proposta principal da vida militar: travar a batalha com o inimigo”. (CASTRO; IZECKSOHN; KRAAY, 2004: 28).

5.   A NOVA HISTÓRIA DA BATALHA

Acossada pelas tendências da Nova História Militar, a escola tradicional reagiu com o estudo de batalhas sob uma perspectiva metodológica moderna, inaugurando o que ficou conhecido como uma Nova História da Batalha. O seu foco está na ação dos exércitos em combate, não em suas existências como instituições. Afinal, como já observara Keegan, “a História Militar [...] tem, em última análise, de tratar da batalha. E prossegue: “A história da batalha, ou a história da campanha, merece uma primazia [...] em relação a todos os outros ramos da historiografia militar”. (KEEGAN, 2000: 30-31)

Entretanto, diferente dos relatos de batalha tradicionais, a nova tendência, inaugurada por Keegan, concentra sua atenção nos protagonistas da batalha: os homens, suas mentalidades e seus sentimentos de camaradagem, medo, excitação, ódio, angústia e sofrimento. Grande atenção também é dedicada ao uso das armas e equipamentos, bem como aos efeitos das armas nos ferimentos sofridos pelos homens, e à execução das manobras e suas dificuldades, diante da realidade do terreno e das condições meteorológicas – lama, poeira, frio, calor, terreno acidentados, vegetação e outros fatores que reduzem ações supostamente heróicas a homens atolados, esgotados, dispersos e desorientados no campo de batalha. A obra paradigmática dessa nova tendência é A Face da Batalha, de John Keegan (2000), publicado originalmente em 1976, descrevendo três batalhas em períodos distintos da História Militar, sob o ponto de vista do soldado comum. De uma perspectiva diferente, mas também focando o homem e a batalha, Keegan (1999) publicou A Máscara do Comando, analisando as vidas de quatro líderes militares e seus modelos de liderança em combate.

Outro importante autor dessa corrente é Victor Davis Hanson, com Carnage And Culture – publicado no Brasil com o título de Por Que o Ocidente Venceu (HANSON, 2002) –, no qual descreve as batalhas que marcaram a supremacia militar do Ocidente. De sua autoria, e na mesma tendência são A War Like No Other (HANSON, 2005), sobre a guerra do Peloponeso entre Atenas e Esparta, e The Western Way of War (HANSON, 2009), no qual apresenta a tradição militar grega como raiz da cultura militar ocidental. Também merece ser citada a historiadora britânica Juliet Barker, cujo livro Agincourt (BARKER, 2010) foi recentemente publicado no Brasil. Neste trabalho, a autora descreve os antecedentes políticos e militares e a própria batalha de Agincourt, travada em 1415, entre o exército do rei Henrique V, da Inglaterra, e o exército liderado pela nobreza da França. Seu estudo apresenta o intrincado jogo político e social por trás das disputas entre a nobreza medieval europeia, bem como a organização dos exércitos medievais e suas imbricações com as relações de suserania e vassalagem e as obrigações militares decorrentes.

Embora não se enquadre completamente no que se convencionou chamar de Nova História da Batalha, convém citar o trabalho inovador de Cecil Woodham Smith em A Carga da Brigada Ligeira: Anatomia de um Desastre, publicado originalmente em 1953. Nesse estudo da tragédia militar britânica na batalha de Balaclava, ocorrida durante a guerra da Crimeia em 1854, a autora realiza uma profunda análise sociológica da nobreza e da oficialidade britânica, apontando como causas do desastre o anacrônico sistema de compra de postos militares e comissões de comando vigente nas forças armadas britânicas, bem como as disputas pessoais por questões familiares e de ascendência social, que afetavam diretamente a cadeia de comando do exército inglês.

7. CONCLUSÕES

O fato que fica evidenciado neste trabalho é que existe efetivamente um conflito de concepções entre os historiadores acadêmicos e os historiadores militares tradicionais sobre o significado da História e suas funções. Embora a História Militar tenha um amplo espectro de interesses, seu escopo é limitado. A ação bélica é o seu tema central, ou não seria uma história verdadeiramente militar. A “Nova História”, por sua vez, pretende ser uma “História Total”, que rejeita a divisão em histórias parciais: política, diplomática, econômica, militar, religiosa etc. Do ponto de vista militar, a principal função da História Militar é didática, voltada para a formação de oficiais e soldados. Do ponto de vista acadêmico, por outro lado, a História Militar é uma ferramenta para compreender as instituições militares como forças sociais de tempo de paz ou de guerra.

Deve-se reconhecer, entretanto, que a “Nova História Militar” trouxe aportes metodológicos importantes e ampliou o campo de pesquisa e a produção científica. Questões como o recrutamento, as origens sociais das tropas, a composição dos quadros de oficiais e a compreensão de suas mentalidades são fundamentais para uma história das instituições militares e avaliação de seu desempenho em combate. Neste sentido, a história crítica proposta pela corrente da Nova História é uma necessidade para a evolução das forças militares. A crítica, entretanto, depende de uma perfeita compreensão dos fatos, como proposto pela tradicional história descritiva. Neste sentido, a História Militar tradicional e a Nova História Militar são tão complementares como o côncavo e o convexo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AZEVEDO, Pedro Cordolino F. de. História Militar. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1998.
BARKER, Juliet. Agincourt: O Rei A Campanha A Batalha. Tradução de Mauro Pinheiro. Rio de Janeiro: Record, 2009.
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BLOCH, Marc. Apologia da História: ou o ofício de historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.
CASTRO, Celso; IZECKSOHN, Vitor; KRAAY, Hendrik. Nova História Militar Brasileira. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004.
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GURIÊVITCH, Aaron. A Síntese Histórica e Escola dos Anais. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Perspectiva, 2003.
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FONTE: PEDROSA, Fernando Velôzo Gomes. A história militar tradicional e a "nova história militar". Anais do XXVI Simpósio Nacional de História - ANPUH, São Paulo, julho de 2011. 

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Ragnar Lothbrok: entre a lenda e a história

Devido a série Vikings escrita por Michael Hirst e produzida pelo History Channel desde 2013, o nome Ragnar Lothbrok tornou-se bastante popular no meio pop e geek da atualidade. Esse intrépido guerreiro que eventualmente acabou se tornando rei da Noruega, cativou uma legião de fãs. Porém, algumas indagações surgiram nestes últimos anos: a série seria baseada em acontecimentos verídicos? Houve realmente um rei viking chamado Ragnar? Se sim, onde sua história foi escrita? Em que época ele teria vivido? O seriado realmente é fiel ao material histórico ou é romanceado? Essas perguntas foram respondidas neste breve artigo, que inclusive também procurou esclarecer algumas dúvidas relacionadas a outros personagens da série como Lagertha, Bjorn, Ivar e os demais filhos do Ragnar. 

Ragnar Lothbrok de acordo com o ator Travis Fimmel, da série Vikings
O que se sabe sobre Ragnar Lothbrok?

É evidente que a série Vikings traz uma visão própria de Ragnar Lothbrok, então não se pode basear totalmente naquela trama escrita por Hirst. Mas em geral o que se sabe de Ragnar é que ele foi um guerreiro famoso, tendo ganhado fama heroica, e supostamente teria sido um antigo rei viking da Dinamarca ou Noruega, tendo vivido em data incerta no século IX, participando de ataques na França, como no cerco de Paris no ano de 845, e tendo invadido a Inglaterra algumas vezes, talvez nas décadas de 850 e 860. Não obstante, Ragnar teria sido morto no reino saxão da Nortúmbria pelo rei Aella II, e sua morte foi usada como fator de vingança pelos seus filhos para invadirem a Inglaterra no ano de 866, na época da chamada invasão do "Grande Exército Pagão" (mycel heaten here). 

Porém, isso é o que normalmente é informado na internet, em sites, blogs ou até mesmo em alguns livros de conteúdo breve. Mas se Ragnar foi um personagem real, quais seriam as obras que contam a sua história? Neste caso, as obras que relatam a vida de Ragnar são escassas, sendo que apenas três delas melhor narram a respeito de seus feitos. A primeira consiste na História Danesa (Gesta Danorum), escrita por um clérigo dinamarquês, o qual assinou com o pseudônimo de Saxo Grammaticus (c. 1150 - c. 1220).  Neste caso o Gesta Danorum consiste no maior trabalho conhecido de Saxo, tratando-se de uma coletânea histórica de vários volumes, apesar que apenas nove volumes foram achados em boas condições de preservação. 

Os demais volumes somente são conhecidos fragmentos. Todavia, nesta coletânea, Saxo tratou de contar os feitos de seu povo, narrando histórias de aventura, poder e conquista. Sabe-se que alguns dos relatos de sua obra realmente são verídicos, mas outros ainda geram dúvidas aos historiadores, por se apresentarem mais como narrativas lendárias ou semilendárias. Neste livro, Saxo aborda a história de Ragnar Lothbrok no nono volume do Gesta Danorum, onde narra a ascensão de Ragnar como rei da Noruega, seu reinado e sua morte. 

A segunda fonte que aborda a vida de Ragnar, trata-se de uma saga preservada em manuscrito, a qual é intitulada Saga dos Filhos de Ragnar (Ragnarsson þáttr). Narrativa de autoria desconhecida e datada do século XIII, conta a história de Ragnar tendo como foco sua morte e a vingança promovida pelos seus filhos. Já a terceira fonte diz respeito a Saga de Ragnar Lothbrok (Ragnars saga Loðbrókar), manuscrito de autoria desconhecida, também publicado por volta do século XIII. Nessa narrativa se encontra mais informações sobre o reinado de Ragnar, seus casamentos, filhos, feitos e morte. Por fim, a uma quarta fonte, embora seja bem breve, tratando-se de um poema intitulado Krakumál, o qual em poucas estrofes narra a morte de Ragnar. No caso, o Krakumál é um poema de autoria desconhecida e datado do século XII ou XIII. 

A partir dessas fontes, em especial o relato de Saxo na História Danesa, e as duas sagas, podemos extrair algumas informações sobre Ragnar Lothbrok, as quais se os leitores prestarem atenção, notarão divergências e incoerências quanto as tais informações. 

Como mencionado, na História Danesa é informado que Ragnar era neto de Sigurd Hring (as vezes referido como Sigurd, o Anel), rei da Noruega, o qual teve seu reino invadido por Fro, rei da Suécia, tendo sido assassinado. Com a morte do rei Sigurd, Ragnar reuniu uma tropa e partiu para libertar o reino de seu avô. A crônica em si não informa detalhes, logo, não se sabe se Ragnar seria herdeiro do trono, se os pais dele já estavam mortos, onde ele vivia etc. Na Saga dos Filhos de Ragnar é mencionado que ele era filho de Sigurd Hring, tendo sucedido o pai como senhor da Dinamarca. Posteriormente, Ragnar conquistou territórios na Suécia, lhe rendendo o título de rei daquele país. Já a Saga de Ragnar Lothbrok diz que ele era filho de Sigurd, tendo se tornado rei da Dinamarca após a morte do pai. 

Na História Danesa é informado que durante a batalha contra o rei Fro, Ragnar e seus homens foram ajudados por uma bela donzela de escudo (skyaldmö) chamada Lagertha. Brava guerreira que ajudou Ragnar a recuperar seu reino, e posteriormente foi pedida em casamento. Do matrimônio eles tiveram duas filhas (cujos nomes não são citados) e um filho chamado Fridleif


Lagertha. Morris Meredith Williams, 1913. 
Porém, Saxo informa que alguns anos depois, Ragnar se separou de Lagertha para que assim pudesse disputar a mão em casamento de Thora Borgarhjört, filha de Herraudr da ilha de Gotland (hoje território da Suécia).  Por sua vez, as duas sagas não mencionam nada a respeito de Lagertha, e se limitam a dizer que Thora teria sido a primeira esposa de Ragnar. Todavia, nesse ponto, entra o caráter lendário das duas obras. 

Para poder conquistar o direito de se casar com Thora, Ragnar teria que completar um desafio proposto pelo pai da noiva, Herraudr, o qual em algumas fontes é mencionado como jarl, outras dizem que ele teria sido rei de Gotland. Apesar dessa divergência se Herraudr foi um jarl ou rei, o que se sabe que ele pertencia a nobreza e era homem de riquezas e influência, alguns fatores pelos quais atraiu Ragnar a tentar casar-se com sua filha. Porém, Herraudr havia estipulado como condição de casamento que o pretendente matasse uma serpente gigante que guardava um tesouro, o qual era herança de sua filha. Pretendentes anteriores haviam desistido do casamento devido a tal desafio e outros morreram ao tentar vencer a grande cobra, porém, Ragnar fez uma roupa resistente e acolchoada para evitar que a picada da serpente lhe perfurasse a pele, assim, ao trajar calças peludas, algo que lhe rendeu o epíteto de Lothbrok, ele venceu terrível animal, vindo a desposar Thora, com quem teve dois filhos, Erik e Agnar

Thora Townhart. Jenny Nyström, 1890. Nessa pintura, vemos Ragnar erguendo sua espada triunfantemente, após ter matado a serpente gigante, desafio imposto como condição para se casar com Thora. 
Mas prosseguindo com os fatos sobre a vida desse rei, após a morte de Thora, Ragnar voltou a casar-se novamente, dessa vez tomando como esposa Aslaug, tida como nobre, as vezes referida como princesa, e que supostamente seria filha do herói Sigurd (aquele que matou o dragão Fafnir) e da valquíria Brunhilde. A presença de Aslaug ou Kraka como também é conhecida, nas duas sagas sobre Ragnar é problemática, pois a mesma é mencionada em outras narrativas, além de ser referida como filha de um lendário herói e de uma valquíria, lembrando que valquírias eram entidades mitológicas.Com Aslaug, Ragnar teria tido vários filhos como informam as duas sagas, embora, ambos os relatos não sejam unânimes quanto a identidade dos mesmos. A Saga de Ragnar Lothbrok diz que com Aslaug ele teve quatro filhos: Ivar, Ubba, Hvitserk e Sigurd. Por sua vez, a Saga dos Filhos de Ragnar informa que os filhos eram Ivar, Bjorn, Hvitserk e Sigurd. Neste caso, percebe-se que a diferença se encontra entre Ubba e Bjorn, já que os outros três são assegurados como filhos de Ragnar. 

Ragnar e Aslaug. August Malmström, 1880. A pintura se baseia em um dos relatos o qual narra que Aslaug encontrou Ragnar, estando vestida com uma rede de pesca e acompanhada de um cachorro. 
Mas além desses relatos sobre a família e casamentos de Ragnar, as três fontes também narram seus feitos. Além de vingar a morte do avô, matar uma serpente gigante, Ragnar teria comandado campanhas na Suécia, no Mar Báltico e na Nortúmbria (no norte da atual Inglaterra), como apontam as duas sagas. Por sua vez, a História Danesa diz que o rei comandou e ordenou incursões pela Escandinávia, Finlândia, Itália, Constantinopla e na Nortúmbria. Embora não haja detalhes sobre tais acontecimentos, apenas breve informações, ainda assim, revela o quão poderoso Ragnar Lothbrok era considerado de acordo com estes relatos. 

Todavia, um último dado a ser comentado com base nessas fontes, diz respeito a morte deste rei e herói. A História Danesa, a Saga de Ragnar, a Saga dos Filhos de Ragnar e o poema Krakumál, todos dizem que o rei foi executado na Nortúmbria, enquanto combatia o rei Aella II. Após ser capturado em batalha, Aella II ordenou que Ragnar fosse executado num poço de cobras. Após sua morte, seus filhos juraram vingança, então reuniram um exército e decidiram invadir os reinos saxões, no que ficou conhecido como a "grande invasão viking da Inglaterra". Tal acontecimento inclusive é mencionado em outras fontes históricas e literárias. No entanto, antes de chegarmos a essa problemática histórica, se faz necessário comentar algumas incertezas e dúvidas referentes as informações contidas na obra de Saxo Grammaticus e nas duas sagas mencionadas. 

Ragnar Lothbrok atirado num poço de cobras. Hugo Hamilton, 1830. Nessa imagem, vemos acima o rei Aella II e seus homens, observando o indefeso Ragnar acorrentado e cercado por cobras. 
Incertezas sobre a vida e feitos de Ragnar: 


Apesar de ter sido apresentado alguns aspectos de forma resumida sobre Ragnar Lothbrok com base na História Danesa, a Saga dos Filhos de Ragnar e a Saga de Ragnar Lothbrok, passemos para uma breve análise de algumas informações citadas nessas obras. Comecemos pela questão da família e da herança.

Nota-se que essas três fontes falam que o avô ou pai de Ragnar era o rei Sigurd Hring, porém, as fontes não concordam entre si quanto ao reino que Ragnar teria governado. Em uma ele é dito ser rei da Noruega, nas outras duas ele aparece como rei da Dinamarca, mas na saga sobre seus filhos, ele é mencionado como tendo sido também rei da Suécia. Além da dúvida quanto a paternidade de Ragnar, surge também a dúvida de onde ele teria sido rei. Isso prejudica saber com precisão se Ragnar teria sido realmente um rei como alegam as fontes, ou ele teria apenas sido um jarl famoso, que séculos depois ganhou status de rei?

Outro ponto questionável a respeito dos familiares dele, diz respeito aos seus filhos. Apesar da História Danesa ser a única fonte onde menciona que a primeira esposa de Ragnar, foi Lagertha, e com ela ele teve duas filhas e um filho chamado Fridleif, as outras duas fontes citam apenas Thora e Aslaug como cônjuges dele, com as quais teve vários filhos. No caso de Thora, Ragnar teve dois filhos com ela, os quais foram mortos em combate, já com Aslaug foram quatro filhos. Entretanto, a identidade desses filhos varia mesmo dentro das fontes, e até mesmo a História Danesa cita uns filhos adotivos. Novamente encontramos incertezas quanto a prole do herói, algo que será comentado novamente quando analisarmos historicamente essas informações. 

Por outro lado, as três fontes são unânimes em dizer que de fato Ragnar confrontou uma serpente gigante para poder desposar Thora. Todavia é preciso salientar que primeiramente tal história parece demasiadamente mirabolante: uma donzela protegida por uma serpente gigante? Isso se torna mais óbvio quando passamos a saber que o dragão nórdico era descrito como uma grande serpente. (LANGER, 2007). Ou seja, Ragnar neste caso enfrentou um dragão para obter uma donzela. A questão que assinalo aqui é o fato que existem várias histórias europeias e até mesmo em outros continentes, de lendas nas quais heróis enfrentam serpentes ou dragões para salvar uma princesa, donzela, santa etc. No caso da literatura germano-escandinava a presença de heróis enfrentando dragões era bem comum. Encontramos várias narrativas escritas entre os séculos XII e XV (ANDRADE, 2017). Provavelmente os autores das histórias sobre Ragnar tenham se baseado nesse elemento literário e o acrescentado em sua história, de forma que a narrativa sobre Ragnar torna-se mais poderosa e fascinante aos leitores, lembrando que as narrativas escritas conhecidas, datam de versões descobertas no século XIII. Se desconhece manuscritos antes daquele século. 

Mas além da presença de uma serpente gigante, um tesouro e uma princesa (ou donzela), outro elemento lendário que se destaca nas histórias sobre Ragnar, e sua terceira esposa, Aslaug, a qual era supostamente dita ser filha do herói Sigurd e da valquíria Brunhilde. Nesse ponto, novamente motivos lendários voltam a permear a obra de Ragnar, apesar de que é preciso comentar que naquele tempo, a ideia de alguém se dizer ser descendente de um herói não era incomum, mas era um meio para obter prestígio social. É preciso informar que entre distintos povos havia a crença de pessoas e famílias alegarem ter uma ancestralidade ilustre, sobrenatural ou divina. Os monarcas egípcios, sumérios, chineses e incas alegavam ser descendentes de deuses ou encarnação destes; famílias nobres e aristocráticas greco-romanas diziam descender de heróis. 

E entre os dinamarqueses, noruegueses e suecos tal pensamento também parece ter existido. Inclusive existem obras como a Saga dos Ynglingos e a Heimskringla, cujos manuscritos mais antigos são datados do século XIII, e creditados a Snorri Sturluson, poeta islandês, as quais apresentam genealogias de reis e famílias nórdicas que supostamente seriam descendentes de deuses. Assim, a presença de Aslaug como descendente de um herói e uma valquíria não seria algo tão fantasioso neste contexto, pois a literatura da época considerava isso um elemento comum, mas não significa que estivesse concordando que Sigurd e Brunhilde tivessem sido reais. 

Um terceiro elemento lendário identificado nos relatos de Ragnar, diz respeito a forma como ele morreu: atirado num poço de cobras venenosas a mando do rei Aella II. Tal flagelo é peculiar. Aðalheiður Gudmundsdóttir (2012) estudando a execução do rei mítico Gunnar num poço de cobras, começou a perceber que na literatura germano-escandinava havia outros exemplos de homens que foram executados dessa forma. Para a autora, o poço de cobras não teria sido uma punição real, mas uma invenção lendária, a qual aparece em algumas narrativas, consistindo numa forma diferente de alguém ser executado, além de ser uma forma sinistra, pois a vítima era atirada num buraco cheio de cobras venenosas. 

No que se refere as viagens de Ragnar, suas ordens e campanhas em outras terras, nota-se que excetuando-se o caso da Dinamarca, Noruega, Suécia e da Nortúmbria, onde as fontes concordam entre si, os demais lugares que ele teria visitado ou enviado homens varia. Provavelmente trate-se de um problema de acréscimo de narrativa. É preciso comentar que naquela época não havia o conceito de livro fechado como hoje conhecemos. Os manuscritos eram em muitos casos escritos por mais de um autor, e as vezes reunidos em coletâneas que necessariamente não possuíam algo em comum. Além disso, sublinha-se que naquele tempo não havia teoria da história para se pensar como escrever a história, logo, as próprias obras históricas são basicamente narrativas parecidas com a literatura, mas que narram acontecimentos reais ou que supostamente eram considerados reais. Tais características são comentadas por McTurk (1991) como sendo um dos problemas de se estudar narrativas medievais que dizem abordar sobre acontecimentos e pessoas reais. 

Imprecisões históricas: 


No tópico anterior comentei de forma sucinta incertezas que as narrativas sobre Ragnar apresentam, aqui essa incertezas voltam a ser abordadas, mas agora se acrescentando dados históricos. As fontes aqui consultadas foram escritas no século XIII em datas incertas, porém, em nenhuma delas informa quando Ragnar teria vivido. Porém dispomos de algumas pistas que sugerem a data na qual tais acontecimentos teriam se passado. O rei Aella II que é creditado como o algoz da morte de Ragnar, historicamente existiu e é mencionado por uma fonte histórica, as Crônicas Anglo-saxãs (IX-X), a qual informa que este monarca faleceu no ano de 867. Por sua vez, Bjorn, Costas de Ferro que teria atacado Paris antes da sua expedição ao Mediterrâneo, sabe-se que no ano de 851 houve um ataque a capital franca, e que supostamente ele teria participado, como sugere o Gesta Normannroum Ducum (XI). 

Não obstante, as fontes comentam que após a morte do Ragnar no poço de cobras, seus filhos teriam organizado um plano de vingança que incluiu a invasão da Inglaterra. Essa invasão é associada com a chegada do Grande Exército Pagão a ilha no ano de 866, como mencionado nas Crônicas Anglo-saxãs. A qual informa que um exército de vikings invadiu o Reino da Anglia Oriental e de lá permaneceu vários anos na ilha, tentando conquistá-la. Logo, com base nestas três datas, os historiadores tendem a situar que Ragnar e sua história teria transcorrido dentro do século IX, sendo que Ragnar teria morrido antes do ano de 866. Porém, isso não soluciona o problema da imprecisão histórica. 

Ryan Hall Kacani (2015) em sua tese de história sobre Ragnar Lothbrok, ao tentar procurar através de documentos históricos, dados que apontassem para a existência do reinado deste suposto rei viking, concluiu que não há fontes que assegurem seu governo, mas, existem crônicas saxãs, francas e germânicas que comentam o reinado de outros reis na Noruega e Dinamarca ao longo do século IX. Macani destaca a existência de quatro reis dinamarqueses Reginfrid (812-813), Horik I (827-854), Horik II (854-860) e Godofredo (880-885), os quais se destacaram em seus reinados, especialmente Horik I por ter promovido campanhas na Germânia e supostamente enviado tropas para Paris. 

Neste caso, para Kacani (2015), Ragnar Lothbrok não teria sido uma pessoa real, mas uma lenda baseada nos feitos de alguns monarcas dinamarqueses. Não obstante, ele menciona que o nome Reginfrid também era gravado como Ragnafrid, que apresenta semelhança com o nome Ragnar. Além disso, o autor também cita o caso de um dos irmãos do rei Haroldo, Cabelo Belo da Noruega, cujo um dos irmãos se chamava Ragnavald, o qual ajudou o irmão na unificação da Noruega, anteriormente dividida politicamente em pequenos reinos. 

Além destes dois casos mencionados por Kacani, mais de um século antes Allen Mawer (1909) já apontava a falta de documentação histórica datada do século IX e X que informasse a existência de Ragnar Lothbrok. Todavia, ele comenta alguns casos curiosos. Com base nos Anais de Xantem (IX), é dito que um líder chamado Reginheri, ou Ragneri ou Ragnerius teria participado do cerco à Paris no ano de 845. Por sua vez, os Anais Irlandeses (IX-X) menciona que um tal Ragnall dos nórdicos empreendeu ataques a ilha, em data incerta. Mawer comenta como os nomes Ragneri e Ragnall são parecidos graficamente com o nome Ragnar, e indagava se se trataria do mesmo homem, se estes seriam outros nomes para Ragnar Lothbrok, e até mesmo se tais homens realmente existiram, e teria inspirado a lenda de Ragnar. No Gesta Normannorum Ducum (XI) é dito que Bjorn era filho do rei Lothrocus da Dânia. O nome Lothrocus lembra Lothbrok, mas seria uma referência a Ragnar? Além disso, que lugar seria essa Dânia? Seria a Dinamarca, a terra dos daneses? Pois McTurk (1991) comenta que nessa crônica inglesa do século XI, o autor considerava a terra dos daneses tanto o território da atual Dinamarca quanto porções do norte da Alemanha. 

Mas essas imprecisões não estão apenas restritas a Ragnar, seus filhos também são alvo delas. Nas Crônicas Anglo-saxãs não há menções que a invasão do exército viking foi motivada por vingança dos Ragnarson, e embora mencione os nomes de Ubba, Halfdan e Sigurd, homens creditados como filhos de Ragnar, nessa crônica eles não são referidos como filhos dele. Por sua vez, Ivar, o Sem-Ossos é mencionado principalmente nos Anais Irlandeses, não aparecendo nas campanhas vikings na Inglaterra. Bjorn, de acordo com a crônica inglesa do Gesta Normannorum Ducum, teria atacado a França e viajado ao Mediterrâneo, mas não participado da invasão à Inglaterra. Nesse ponto, Mawer (1909) comentava que os supostos filhos de Ragnar como creditado nas fontes dos séculos XII e XIII, são mencionados em crônicas e anais saxões, francos e irlandeses datados do século IX, mas sem possuir uma ligação familiar entre si. 

Considerações finais:

Diante dessas imprecisões históricas e falta de conexão entre os personagens mencionados, Allen Mawyer (1909) e Rory McTurk (1991) sugeriu a hipótese de que Ragnar Lothbrok, suas esposas, filhos e feitos tratariam-se da mistura de acontecimentos históricos, lendários e literários, cujas versões mais antigas começam a aparecer em crônicas do século XII como o Libellus de exordio, o Historia Regum Britanniae e Floris Histotarium, produções inglesas que comentam que a grande invasão ocorrida no século IX foi ocasionada pela morte de Ragnar Lothbrok e a vingança de seus filhos. Porém, só passamos a conhecer relatos mais detalhados dessa narrativa, em manuscritos do século seguinte, como comentado ao longo deste estudo. 

Ryan Kacani (2015) e sua tese também conclui que a carência de fatos que corroborem o reinado de Ragnar, as divergências nos relatos, as incertezas sobre sua vida e família, e as imprecisões históricas contribuem para questionar se Ragnar Lothbrok realmente teria existido. Para Kacani o mesmo não teria sido um personagem totalmente lendário, mas semilendário, pois ele acredita que outros homens possam ter tido seus feitos utilizados pelos autores tardios par construir a história de Ragnar. 

O que podemos concluir até o momento é que não foram encontrados fatos e provas que garantam a existência de Ragnar Lothbrok, mas excetuando-se os elementos lendários contidos em sua narrativa, não se pode negar que haja acontecimentos históricos contidos nessas histórias, especialmente referente a conflitos e invasões. Ao mesmo tempo em que além de não poder garantir a existência de Ragnar como tendo sido uma pessoal real, suas esposas Lagertha, Thora e Aslaug se encontram na mesma condição, e seus filhos também. Embora que no caso destes haja dúvidas se eles teriam sido inspirados em homens reais com o mesmo nome, os quais teriam participado das expedições na Inglaterra, Irlanda e França. 

NOTA: Na série Vikings, Ragnar possui um irmão chamado Rollo. Historicamente Rollo realmente existiu, tendo se tornado um nobre franco, o Conde da Normandia
NOTA 2: Apesar do rei Aella II ser mencionado na Crônica Anglo-saxã, quase nada se sabe de sua vida e reinado. A crônica sugere que ele teria governado entre 863 e 867. Um reinado curto. 
NOTA 3: Na série Vikings os reis Horik I da Dinamarca e Haroldo Cabelo Belo aparecem, em temporadas distintas, mas historicamente eles não teriam sido contemporâneos. Haroldo teria nascido na época que Horik havia falecido. 

Fontes: 
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GRAMMATICUS, Saxo. The history of Danes, books I-IX. Edited by Hilda Ellis Davidson; translated by Peter Fisher. Woodbridge: D. S. Brewer, 1979. 

As outras fontes mencionadas no texto foram consultadas a partir das obras de referência. 


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